sábado, março 01, 2008

A FRANCESINHA (crônica de Leila Jalul)

O Instituto São José, zelador que sempre foi da educação das meninas, tinha, dentre suas atividades, a encenação de peças teatrais. As freiras, por mais sisudas, por mais intolerantes, cuidavam da educação não só na base do quadro negro e da maestria do tablado. No meu tempo, o professor tinha a mesa sobre um tablado por dois motivos: enxergar o fundo da sala e ostentar o grau de superioridade.
“Olhem aqui, vejam a minha posição! Se fosse igual a vocês, estaria aí, sentado na carteira e com o rabo inquieto, com medo da reprovação. Mais respeito, ok?”
O colégio tinha visão. Teatro é instrumento de aguçar a criatividade, de soltar demônios, de trazer os pais para perto.
Nunca fui aluna do São José, mas morava parede e meia e, por justiça, mesmo não gostando muito nem de freiras, nem de padres, as irmãs gostavam de mim e me permitiam brincar de baleado e atuar nas peças memoráveis que lá aconteciam.
Numa data, não me lembro, havia uma tal de homenagem às Nações Unidas. Resolveram encenar um “espetáculo” com a presença de Portugal, França, Itália, (claro, elas eram em sua maioria italianas!) Brasil, Argentina, Alemanha, Índia, Estados Unidos e algum país da África, que integravam a aldeia global. O povo unido jamais será vencido!
Na primeira reunião – para definir elenco, texto, data, músicas, escolher biotipos, etc, etc, etc, - fomos chamadas. Éramos dez meninas olhadas de baixo para cima, de cima para baixo, que deveriam se encaixar nos papéis, de acordo as aparências étnicas. Como sempre fui audaciosa, já me escolhi para o papel de portuguesa. Me escolhi pela música e pelo fato de ter na minha avó Júlia, uma autêntica lisboeta do Ceará. A música era linda! Era a minha cara!
Só um pedacinho para não cansar ninguém:
“Minha terra pequenina,
meu querido Portugal,
tão linda e tão cristalina,
com um sonho de natal.
Onde o vento passa leve,
onde é dourado o arrebol,
onde há casinhas de neve
e roupas corando ao sol!”

- Irmã, eu quero ser Portugal!
- Não Senhora! Portugal vai ser a Solange. A senhorita vai ser a francesa.
- Eu, francesa? Não tenho nada a ver com francesa!
- Ou você vai ser a francesa, ou nada!

Eu já estava ganhando uma boiada, discutir o que?
Deixa a Solange, filha do Seu Silvio Ferrante, ser a portuguesa. Afinal, ela, branquela, tem as maçãs do rosto coradas pela neve

A música da francesa era podre:

“Pelas ruas de Paris,
num dia de chuva eu quis passear,
mas a chuva era tão forte
que eu me achei sem sorte
e correndo regressei.
Voltei, apesar da mágoa,
tal qual num frango d'água,
quase perco por um triz
meu vestido de veludo,
sapato, meia e tudo
por passear em Paris.
Oh! Paris, Oh! Paris!
que sonhos contigo fiz!”

A Solange, tímida como uma princesa medieval, virou alegre. Mas não tem nada não, Solange não dá rima, mas tudo bem!

Chega o dia do espetáculo. A roupa da Solange era o próprio espetáculo. Caprichada, coisa de mãe devota de filha (acho que o nome dela era Franscisquinha). Parecia uma pastorinha importada da Serra da Estrela diretamente para o palco do Instituto São José.
A roupa da francesa, de lamê barato, vermelho, com camadas de franjas da mesma cor, estilo melindrosa, impunham em mim, menina, a mesma cara da rima da Solange, que pensei se chamar Celuta. De tanta raiva, me restou ser o que me impuseram. A franja ajudava e, mostrando as unhas escarlates, tremeliquei tanto que mais parecia estar levando um choque de 400 volts.
No final, fomos aplaudidas de pé. A Solange, feliz por ser portuguesa, e eu, por ser francesa. Não guardamos ressentimentos e fomos crianças amigas e felizes.
Fizemos outras apresentações. Por sorte, não me tornaram atriz de uma personagem só. Numa peça de quaresma, fui Maria Madalena. Era a minha cara. Além de chorar e aguardar a ressurreição, minha fala era: “Ele ressuscitou! Ele ressuscitou!"
O que até agora não entendi foi um ovo pintado de vermelho que eu tinha que mostrar para provar a ressurreição.
*************************
Esta crônica foi extraída do livro SUINDARA de LEILA JALUL.
Leila é a cronista acreana que nos comentários de um dos posts do blog de Flavia escreveu a crônica SE EU FOSSE que emocionou muita gente. Eu, mais que todos. Transformei o comentário de Leila num post. Para ler SE EU FOSSE, esta crônica de Leila dedicada à Flavia, clic nest link.

Eu e Leila ficamos amigas e me encanto com a intimidade e a desenvoltura que ela tem com as palavras. Suas crônicas, excetuando-se aquelas que o assunto exige mais seriedade, são escritas com um bom humor que me cativa, pois bom humor é qualidade que aprecio muito nas pessoas. Morro de rir ao ler a maioria das crônicas de Leila. E não nos esqueçamos de que na vida, haja o que houver, venha o que vier, sorrir é preciso.

Um beijo, Leila!

15 comentários:

Elvira Carvalho disse...

Gostei deste texto e me encantei com a narrativa.
Hoje eu me perdi no blog da Flávia, e porlá andei vendo os últimos posts. E também me impressionei com a história da Francisca a transportar a filha e a cadeira no onibus.
Um abraço para si e para a Flavinha.
E amiga me informaram que estão a infectar os blogues com um virus que chega num comentário chamado HERE. Se receber, não tente ver de quem é e delete.
Eu não sei se é verdade mas mais vale prevenir...

Jalul disse...

Amiga, estou trabalhando numa máquina velha que ainda funciona. É um carroção, mas funciona!
Dei uma olhada no texto e fiquei traumatizadíssima.(rs)
Queres saber a razão?
Pois bem, além de não ter ganho a personagem da portuguesinha, você trocou a letra. Não é sorriso de Natal. É sonho de Natal!
Vamos lá:
Minha terra pequenina,
meu querido Portugal,
tão linda e tão cristalina
como um SONHO de Natal.
Correto?
Um beijo.
Por ser sua amiga, muito obrigada!
Leila Jalul

Odele Souza disse...

Leila,
Peço desculpas pela distração quase imperdoável. Já corrigi.
Um beijo.

Myllana disse...

Gostei muito do texto :)
Realmente é muito bem escrito .
Bom final de semana ( ou restinho dele !)

Fátima disse...

Amiga,

Realmente há ternura na vida! Gostei muito do texto!

:-) beijinhos

Isabel Filipe disse...

Oi Odele,

Que lindo conto ... gostei muito ... e ficam os meus parabéns à Leila
_____________

só uma pergunta: o que é "um tablado"????


beijinhos

Fátima disse...

Amiga,

Tenho um miminho para ti no meu cantinho, passa por lá!

:-) Beijinhos

Fragmentos Betty Martins disse...

querida _____________Odele


esta narrativa é uma perfeição. parabéns:)


e finalizas com uma grande verdade





"E não nos esqueçamos de que na vida, haja o que houver, venha o que vier, sorrir é preciso".


[tenho por ti uma grande admiração]


parabéns à Leila pelo texto









beijO c/ muitO carinhO

Myllana disse...

Sorrir sempre, apesar de todos os obstáculos da vida :)

Pessoas como você nos dão muita força e admiro tua luta .

Um grande beijo .

Jorge P. Guedes disse...

Narrativa muito engraçada. Essa do ovo vermelho a provar aressurreição também gostava de entender, palavra!

O sorrir alimenta a alma!

Um abraço para mãe e filha.
Jorge G.

xistosa, josé torres disse...

Li e gostei.
Mas gostei mesmo.

Anônimo disse...

Desculpa a msg colada...

Viemos aqui para lembrar voce que amanha eh dia de nossa coletiva pela
valorizacao da mulher brasileira ! Ja contamos com cerca de 200
pessoas que assim como voce abracaram com carinho essa linda campanha
pelas mulheres. Amanha eh dia de luta na blogosfera e contamos com seu
apoio.

Se ainda esta sem ideias para seu post, busque inspiracao em nossos
blogs pois la voce encontrara varias ideias de abordagem. Se ainda nao
for suficiente nos escreva que podemos lhe ajudar sem duvida.

Um forte abraco e amanha fique certo que nos e mais um monte de
pessoas estaremos aqui para ler o que voce tem para nos contar !

Meire - http://meiroca.com/2008/02/05/pela-vlorizacao-da-mulher-brasileira/
Lys - http://universodesconexo.wordpress.com/coletiva-pelas-mulheres/

Maria Clarinda disse...

Lindo este teu recordar.
Bom fim de semana amiga

Unknown disse...

Fantástico e delicioso texto......
Adorei leer vc.

beijoS;

Anônimo disse...

Odele, conheço o delicioso livro de Leila, que ganhei de presente, assim que foi lançado. E ela ainda me dedicou uma das crÔnicas, motivo de honra e emoção sempre que o leio.
Ando perdida dela, depois que se mudou.
Ao falar com Leila, por facor, transmita minhas saudades.
A crônica sobre Flávia é realmente emocionante.

beijos
P.S. Por favor, sinta-se à vontade para publicar aqui qualquer poema meu. EU ficarei muito feliz.

beijos, boa semana para você.