quarta-feira, junho 27, 2007

CINZAS AO VENTO.

Não sei como me comportar em cerimônias fúnebres. Fico agoniada, e por mais que tente, nunca consigo dizer às famílias, algo original, uma frase que realmente traduza meu sentimento de solidariedade e tristeza pelo falecimento de seu ente querido. Tem também o fato de que não paro de pensar no destino do corpo – o túmulo. Quando acaba o ritual de despedida do morto, e todos caminham lentamente em direção ao local onde o corpo será sepultado, minha angústia aumenta. Faço-me forte para ficar até o fim da cerimônia, quando o caixão desce à cova e lhe jogam terra por cima. Nem mesmo todas as flores que depositam sobre a terra fresca e recém escavada, me fazem sentir melhor.

Outro dia, porém, assisti a uma cerimônia fúnebre diferente. O corpo, em vez de enterrado, foi cremado. Aconteceu no crematório de Vila Alpina, um dos maiores do mundo e o primeiro na América Latina. Fica na zona oeste de São Paulo. O local é muito bonito, com uma imensa área verde, tudo muito bem cuidado.

Nesta cerimônia de cremação que presenciei, a falecida era uma mulher entre 50 e 60 anos. O viúvo, andando de um lado para outro, cuidava dos mínimos detalhes, talvez, para que a cerimônia mostrasse aos presentes, a importância que a falecida tivera em sua vida. Ouvia-se no ambiente as músicas que foram significativas no relacionamento deles, e pouco antes do corpo descer à urna de cremação, o viúvo leu um poema para a amada morta, que pelas palavras me pareceu ter sido escrito no dia de sua morte, ou seja, no dia anterior. Foi lindo.

Uma semana após a cremação, fiquei sabendo, o viúvo foi ao crematório e trouxe para casa, as cinzas de sua esposa.Tudo coube numa pequena caixa de madeira. Depois de outras duas semanas, ele viajou à Paris e num ritual lento, espalhou as cinzas da amada por todo o jardim da Place de Tuileries, onde há muitos anos atrás eles haviam se conhecido, e para onde voltaram muitas vezes quando estavam em férias. Uma prova de amor. Ainda.

O escritor brasileiro Jorge Amado, autor de Gabriela Cravo e Canela, Dona Flor e Seus Dois Maridos, Tieta do Agreste, Tocaia Grande, Capitães de Areia, Tenda dos Milagres e e tantos outros livros traduzidos para vários idiomas, também foi cremado. Jorge Amado, falecido em agosto de 2001, teve suas cinzas – dentro de uma urna - enterradas embaixo da mangueira do jardim de sua casa na Bahia, onde por mais de 40 anos ele morou com a esposa, a também escritora Zélia Gattai. Zélia enterrou as cinzas do marido aos pés da velha mangueira, porque era lá que ele ficava por longas horas escrevendo. Este desejo de Jorge Amado - que suas cinzas fossem depositadas ao pés da mangueira plantada por ele e Zélia no jardim da casa - foi feito no livro “Navegação de Cabotagem”.

Uma das vantagens da cremação é que os familiares ficam “desobrigados” de visitar o túmulo de seus mortos, às vezes enterrados em locais distantes, ou até mesmo em outras cidades ou países, o que dificulta e por vezes até impossibilita a visita dos parentes, o que acaba gerando neles, um sentimento de culpa, pela sensação que passam a ter de estarem “abandonando” seus entes queridos mortos. Quanto a mim, prefiro ter minhas cinzas soltas ao vento ou enterradas sob a sombra de uma frondosa árvore. Muito melhor que o túmulo.

segunda-feira, junho 18, 2007

ATALHOS - Martha Medeiros.

De vez em quando me deparo com alguns textos que me fazem refletir e por isso tenho vontade de compartilhar com os amigos. O texto abaixo, de autoria de Martha Medeiros, é um exemplo disso.

Quanto tempo a gente perde na vida?
Se somarmos todos os minutos jogados fora, perdemos anos inteiros
Sim, depois de nascer, a gente demora pra falar, demora pra caminhar, etc.
E aí, mais tarde, demora pra entender certas coisas.
Demora, também, pra dar o braço a torcer.
Viramos adolescentes (aborrecentes) teimosos e dramáticos.
E levamos um século para aceitar o fim de uma relação. E outro século para abrir a guarda para um novo amor.
Quando, já adultos,
demoramos para dizer a alguém o que sentimos,
demoramos para perdoar um amigo,
e demoramos para tomar uma decisão.
Até que um dia a gente faz aniversário. 37 ou 41 anos. Talvez 50 e tal....
Uma idade qualquer que esteja no meio do trajeto.
E só aí a gente descobre que o nosso tempo não pode continuar sendo desperdiçado.
Fazendo uma analogia com o futebol, é como se a gente estivesse com o jogo empatado, no segundo tempo, e ainda se desse ao luxo de atrasar a bola pro goleiro.
Ou fazer tabelas desnecessárias.
Quanto esbanjamento.
E esquecemos que não falta muito pro jogo acabar...
Sim, é preciso encontrar logo o caminho do gol.
Sem muita frescura, sem muito desgaste, sem muito discurso.
Pois tudo o que a gente quer, depois de uma certa idade, é ir direto ao assunto.
Excetuando-se no sexo, onde a rapidez não é louvada, pra todo o resto é melhor atalhar.
E isso a gente só alcança com alguma vivência e maturidade.
Pessoas experientes já não cozinham em fogo brando.
Não esperam sentadas, não ficam dando voltas e voltas.
E não necessitam percorrer todos os estágios.
Queimam etapas.
Não desperdiçam mais nada.
Uma pessoa é sempre bruta com você?
Não é obrigatório conviver com ela.
O cara está enrolando muito?
Beije-o primeiro e veja se ele, realmente, interessa e transmite algum sentimento.
A resposta do emprego ainda não veio? Procure outro enquanto espera.
Paciência só para o que importa de verdade.
Paciência para ver a tarde cair.
Paciência para degustar um cálice de vinho.
Paciência para a música e para os livros.
Paciência para escutar um amigo.
Paciência para aquilo que vale nossa dedicação.
Pra enrolação, um atalho.
O maior possível!

quinta-feira, junho 14, 2007

OS ÚLTIMOS 5 LIVROS QUE LI.


Fui convidada pelo blog Livros e Autores a participar desta corrente literária, e aqui estou cumprindo esta incumbência, que considero agradável. Acho bacana esta idéia porque pode servir até de incentivo à leitura. Por exemplo, fiquei curiosa para conferir alguns dos livros mencionados por pessoas da blogosfera, as quais admiro. Além disso, nomear um blog para continuar a corrente, já se torna uma divulgação desse blog, o que é muito bom, pois nos ajuda na tarefa de "garimpar" blogs interessantes.

Estes são os últimos 5 livros que li:

1. A MENINA QUE ROUBAVA LIVROS - de Markus Zusak
2. O CAÇADOR DE PIPAS - de Khaled Hosseini
3. RETRATO EM SÉPIA - de Isabel Allende
4. POR UM FIO - de DRAUZIO VARELLA
5. O LIVRO DE OURO DA MENTE - de Rita Carter

E para continuar a corrente, escolho os seguintes blogs:

1. Águas da Vida
2. Violada Mas Não Vencida
3. De Mattar
4. Aromas de Portugal
5. Beezblog

Um abraço a todos.

segunda-feira, junho 11, 2007

DEPRESSÃO, QUEM JÁ NÃO SENTIU?

Marina vivia um caso de amor complicado. Era apaixonada por um homem casado, desses que dizem que o casamento está péssimo, que já não sentem nada pela mulher, que até já dormem em camas separadas, mas que não se separam por causa dos filhos. Coitados. No início do romance, Marina jurou para si mesma que não faria cobranças ao amado, que viveria o dia a dia desse amor, e que jamais, em tempo algum, reinvindicaria para si o papel da esposa, porque pensando bem, dizia ela, bom mesmo era ser amante, que entre outras vantagens, tem a seu favor, um relacionamento sem rotina, esta, uma das causas do desaparecimento do namoro e da paixão em muitos casamentos.

Com o passar dos anos no entanto, Marina foi mudando de idéia. Chateava-se quando nas datas mais importantes como Natal, Ano Novo, aniversário dele, era com a esposa que ele ficava. Além disso começava a lhe incomodar também o fato de não poder fazer uma caminhada pelo Parque Ibirapuera, de mãos dadas com seu amor. E se encontrassem alguém conhecido? Melhor não arriscar dizia ele, e assim, ela que adorava passear pelo parque, se quisesse ir, teria que ser com amigos ou mesmo sozinha. Com ele não. Marina sabia, tinha certeza que o homem pelo qual estava apaixonada e com quem dividira, mesmo que parcialmente, os últimos dez anos de sua vida, nunca tomaria a decisão de sair da casa onde morava com esposa e filhos para morar com ela. Haviam sido amantes por dez anos e era assim que deveriam continuar até o fim dos tempos. Amantes.

Passei uma semana tentando falar ao telefone com Marina e como ninguém atendesse resolvi ir até o apartamento dela. Toquei a campainha várias vezes. Ninguém atendeu. Fui pedir informações ao zelador do predio e ele me disse que o carro dela estava na garagem e que não a tinha visto sair. Toquei de novo e de novo ninguém atendeu. Perguntei ao zelador se ele poderia arrombar a porta e ele, já preocupado também, fez o que lhe pedi. Com um chute forte o homem botou a porta abaixo e entramos. Fui direto ao quarto e lá estava Marina, não largada na cama como era de se esperar, mas encolhida num canto, feito bicho acuado, numa depressão que dava dó. Moça bonita que sempre foi, estava despenteada e não tomava banho há dias. Com a ajuda do zelador eu a coloquei embaixo do chuveiro e lhe dei um bom banho. Depois, lhe preparei uma refeição leve e conversamos muito. Passamos a tarde juntas. Ela estava nesse estado deplorável porque há uma semana atrás o homem casado lhe dissera, que havia se cansado da vida dupla que vinha levando nesses anos todos e decidira ficar com a esposa. Era este o motivo da forte depressão de Marina, a perda de seu grande amor.

Não sou médica, tampouco psicóloga, mas pelo que tenho observado, parece que algumas pessoas precisam de um motivo para entrarem em depressão, outras não. Muitas pessoas me perguntam se não entro em depressão por causa do estado de coma de minha fiha Flavia, e dizem que sentem vergonha por se sentirem deprimidas por motivos banais. Acho que ninguém deve se envergonhar por isso. Cada um de nós tem a sua maneira de lidar com os problemas e dificuldades da vida, e não é pelo fato de alguém ter um grande motivo pra entrar em depressão e não entra, que deve ser considerada uma pessoa mais forte que a outra que se deprimiu por um motivo simples ou até mesmo sem motivo algum. Todas as dores, não importa o motivo, devem ser respeitadas, mas se a depressão for constante, acho que procurar ajuda profissional é uma boa idéia.