domingo, setembro 26, 2010

Danielle Miterrand: Sabedoria e generosidade.

O  texto deste post foi copiado  na íntegra do blog Diário de um Juíz.

“Antes de mais nada devo deixar claro que não é um pedido de desculpas. Muito menos un enunciado de justificativas vãs, comum aos covardes ou àqueles que vivem preocupados em excesso com a opinião dos outros.
 Aos 71 anos, vivendo a hora do balanço de uma existência que é um sulco bem traçado e profundo, já não mais preciso, e nem devo correr atrás de possíveis enganos.
Vivo o momento em que as sombras já esclarecem e que as ausências são lindas expressões de perenidade e criação.
Sombras e ausências podem ser tudo, ao passo que luzes e presenças confudem os mais precipitados, os mais jovens.
Vivi com François 51 anos; estive com ele em muito desse tempo e me coloquei sempre. Há mulheres que não se colocam, embora estejam; que não se situam, embora componham o cenário da situação presumível.
Uma vida de altos e baixos. Na época da Resistência nunca sabíamos onde iríamos passar a noite - se na cama, na prisão, nos bosques ou estendidos por toda a eternidade.
Quando se vive assim em comum, cria-se uma solda e a consciência de que é preciso viver depressa.
Concentrar talvez seja a palavra. por isso tentei entendê-lo, relacionar-me com sua complexidade, com as variações de sua pessoa e não de seu caráter…
Quem entende ou pelo menos luta para compreender as variações do outro, o ama realmente. E nunca poderá dizer que foi enganada ou que jamais enganou.
Não nos enganamos, nos confundimos quando nos perdemos da identidade vital do parceiro, familiar ou irmão. Ou jamais os conhecemos, o eu também, não é um engano. Quem não conhece, não tem enganos.
Nas variações do outro, não cabe o apaziguador que destrói tudo antes do tempo em forma de tranquilidade. Uma relação a dois não deve ser apaziguada, mas vibrante, apaixonada e não enfastiada.
Nessa complexidade vi que meu marido era tão meu amante quanto da política.
Vi, também, que como um homem sensível poderia se enamorar, se encantar com outras pessoas, sem deixar de me amar.
Achar que somos feitos um único e fiel amor é hipocrisia, conformismo. É preciso admitir docemente que um ser humano é capaz de amar apaixonadamente alguém e depois, com o passar dos anos, amar de forma diferente. Não somos o centro amorável do mundo do outro. é preciso aceitar, também, outros amores que passam a fazer parte desse amor como mais uma gota d’água que se incorpora ao nosso lago.
Simone de Beauvoir dizia bem, que temos amores necessários e amores contigentes ao longo da vida.
Aceitei a filha de meu marido e hoje recebo mensagens do mundo inteiro de filhos angustiados que me dizem: - Obrigado por ter aberto um caminho. Meu pai vai morrer, mas eu não poderia ir ao enterro porque a mulher dele não aceitava.
É preciso viver sem mesquinhez, sem um sentido pequeno, lamacento, comum aos moralistas, aos caluniadores e aos paranóicos azedos que teimam em sujar tudo.
Espero que as pessoas sejam generosas e amplas para compreender e amar seus parceiros em suas dúvidas, fragilidades, divisões e pequenas paixões. Isso é amar por inteiro e ter confiança em si mesmo.
Deus não Prometeu Dias sem Dor; Risos sem Sofrimento; Sol sem Chuva. Ele prometeu Força para o Dia; Conforto para as Lágrimas e Luz para o Caminho…”
"* Declaração feita por Danielle Miterrand, mulher do ex-presidente François Miterrand, ao povo francês, ao ser criticada por permitir a presença da amante do marido e de sua filha, Mazarine, na cerimônia fúnebre do ex-marido, em 1996."

sexta-feira, setembro 24, 2010

CIDADANIA. OU A FALTA DELA.

Cartaz afixado no muro de um prédio do bairro onde moro.
Tenho uma cachorrinha chamada Michele que está aqui em casa desde 2002. Comprei Michele porque   tive a insana esperança de que seus latidos pudessem tirar minha filha Flavia de seu estado de coma. Michele não acordou Flavia, mas tornou-se uma delicada e querida presença entre nós. Por esses dias em que precisei me ausentar por uma semana de casa por conta de uma  nova hospitalização de Flavia, ao voltarmos para casa, Michele, que ficou sendo cuidada pelo zelador de nosso prédio, ao nos ver chegando, quase teve um ataque de tão eufórica que ficou. São assim os animais, apegam-se aos donos de forma comovente.
Mas o intuito deste post é dizer que apesar de gostar muito de Michele, raramente vou passear com ela. Falta-me tempo e vontade. Mas quando saio com  minha Poodle às ruas, invariavelmente levo comigo  dois ou três saquinhos plásticos, para recolher suas fezes. Mas vejo que infelizmente este não é um hábito comum entre as pessoas que levam seus cães para passear e os deixam sujar as ruas onde outras pessoas têm que desviar das fezes de seus cães.
Em um dos prédios aqui das redondezas, os condôminos colocaram alguns  cartazes como o que ilustra este post, na tentativa de conscientizar os donos dos cães a não emporcalhar suas calçadas. Mas essa conscientização nem sempre acontece, pois  é comum termos que desviar nossos olhos da paisagem para fixá-los nas calçadas por onde caminhamos, sob pena de pisar em fezes dos cães dos cidadãos que não têm a mínima noção de cidadania. Que lamentável.