domingo, janeiro 28, 2007

INFÂNCIA EXPLORADA

Quase seis horas da tarde. O trânsito no cruzamento da Av. Moema com a Ibirapuera era dos mais pesados. Com o farol fechado, fui obrigada a parar e esperar. Apesar do sempre medo de assaltos, o forte calor não me deixava opção senão abrir os vidros do carro. Uma menina, aparentando quatro ou cinco anos, se aproximou estendendo a mãozinha e pedindo um trocado. Pensei :


- Meu Deus, uma criança tão pequena assim eu ainda não tinha visto pedindo esmolas no farol.

Chamou-me a atenção a beleza da criança. Rosto de boneca, cabelos loiros e encaracolados, olhos azuis lindos. Usava um vestidinho florido e chinelinhos tipo havaiana e andava com desenvoltura entre os carros, parando em quase todos para pedir dinheiro. Olhei em volta para ver se algum adulto a acompanhava e lá estava na calçada, ao lado da Igreja Nossa Senhora Aparecida, uma mulher mal vestida e suja orientando a menina a pedir. Ao perceber que as pessoas elogiavam a beleza da menina, a mulher - seria a mãe? punha no rosto um sorriso de contentamento. Fiquei chocada, revoltada. Penalizada.

Se era a mãe, como podia explorar assim a filha, tão pequenina e frágil? Preferi pensar que era uma estranha usando a criança para sensibilizar os motoristas. Mas cadê a polícia que não passava por alí para prender aquela mulher, exploradora de criancinhas?

O farol abriu e tive que botar o carro em movimento. A mulher gritou e a menininha andando entre os carros, sem noção do perigo, correu ao encontro da mulher que a esperava na calçada. E alí ficaram as duas esperando outra vez o farol fechar, para a mulher mandar a menininha outra vez entre os carros esmolar. Que dó.

É mesmo revoltante ver crianças pedindo nos faróis, quase sempre orientadas por um adulto que se olharmos bem, estará pelos arredores, à espreita, esperando para botar no bolso o que a criança arrecada nessa humilhante situação. Todos sabemos que criança deveria estar na escola e não nas ruas, mas mesmo existindo tantos orfanatos e projetos que as retiram das ruas, esta parece ser uma tarefa sem fim. Que triste.

sexta-feira, janeiro 26, 2007

CONTRADIÇÃO

Não gosto de dias chuvosos
Mas adoro o arco íris
Que às vezes a chuva nos deixa ..

Não gosto de noites escuras
Mas é a escuridão que me faz
Melhor ver a luz das estrelas

Não gosto de ficar longe
De pessoas queridas
Mas adoro os reencontros
Que são - e disso também não gosto,
O início de novas partidas ...

Odele Souza

sábado, janeiro 20, 2007

E A DOR, QUEM PAGA?

Que me perdoem os que já estão exaustos de ler sobre o acidente ocorrido na linha 4 do Metrô de São Paulo, estação Pinheiros, ocorrido dia 12 deste mês de Janeiro. Parece que o noticiário está prestes a terminar já que foram resgatados todos os corpos. Pelo menos é o que se acha.

Essa tragédia mexeu comigo. Leio sobre possíveis indenizações aos que perderam seus imóveis, carros, móveis e outros pertences. Apesar de toda a cobertura feita pela imprensa no caso desse acidente do Metrô, não acredito em indenizações justas e muito menos rápidas. Nossa justiça, todos sabemos, é lenta. E essa lentidão em indenizar perdas de qualquer natureza, já se configura uma enorme injustiça. A pessoa que teve sua casa destruida ou danificada por esse acidente, não teria que ficar morando em hotel por muito tempo. Uma nova moradia lhe teria que ser providenciada com urgência. Que transtorno sair de casa às pressas, deixar o conforto do lar para morar no ambiente impessoal de um hotel.

Vi na televisão uma moça lamentar ter deixado para trás seus objetos pessoais. Ela dizia: "Tive que sair de minha casa sem ter tempo sequer de pegar minhas coisas como computador, fotografias.... As pessoas podem achar que isso é bobagem, mas é a minha vida!." E ela tem razão. Vi também uma senhora moradora da Rua Capri onde aconteceu o acidente, sair chorando por ser obrigada a deixar a casa onde criou filhos e netos. Ela dizia que além de deixar sua casa, atrás de si estava deixando também suas lembranças. Essa senhora morava na rua havia mais de 50 anos.

E o que dizer então daqueles que perderam seus parentes, assim tão de repente? Que dor tão grande! Sim, porque tenho mais pena dos que ficaram do que daqueles que partiram. Aqueles já devem estar nos braços de Deus, já que eram todos pessoas de bem, trabalhadores. Batalhadores. Quem fica, vai remoer sua dor até que o tempo a amenize, mas isso, sabemos, leva tempo.

Mesmo que as indenizações a todos os que perderam com esse acidente do Metrô sejam pagas rapidamente - no que sinceramente não acredito - algumas coisas são impagáveis. O susto pelo ocorrido, o medo do desconhecido, a aflição. E a dor. quem pode pagar pela dor? Ninguém pode.

sexta-feira, janeiro 19, 2007

QUANDO A ESPERANÇA ACABA

Desde o dia 12 deste mês de Janeiro todos nós temos acompanhado a aflição dos familiares das pessoas soterradas no chocante acidente ocorrido nas obras da linha quatro do Metrô de São Paulo, estação Pinheiros. As famílias, embora muito aflitas, mantinham dia após dia a esperança de que seus parentes fossem resgatados ainda com vida, mesmo debaixo de toda aquela terra.

Enquanto os bombeiros trabalhavam exaustivamente no resgate dos corpos soterrados, aquelas pessoas permaneciam no local, acomodadas da forma que fosse, em barracas improvisadas. Comoveu-me especialmente a mulher do cobrador, tão jovem quanto ele e grávida de oito meses. Nos primeiros dias, ela, apesar da angústia e aflição, atendia gentilmente os repórteres e se perguntada, respondia que tinha sim, muita esperança de que seu marido ainda estivesse vivo.

Eu, que também por causa de um acidente tenho minha filha vivendo em coma há mais de nove anos, sei como é ter esperança. Este sentimento é o que nos dá forças para agüentar o choque pela tragédia, é o que nos faz acreditar que o dia seguinte será melhor do que o de hoje. A máxima de que enquanto há vida há esperança, apesar de ser uma frase tão batida, é uma verdade irrefutável. A esperança se sobrepõe ao cansaço por tantos dias difíceis e noites mal dormidas. É assim comigo. Foi assim com a jovem esposa do cobrador.

A esperança é que nos sustenta. Quando a esperança acaba, a pessoa desaba.

segunda-feira, janeiro 01, 2007

CARTÃO DE NATAL, AGORA, SÓ VIRTUAL?...


Bonito era enfeitar a árvore de Natal com os cartões recebidos dos amigos. Cada um com uma mensagem de esperança e carinho. Tanto carinho. Com o passar do tempo, os cartões recebidos pelo correio foram se tornando cada vez mais escassos, pois foram substituídos pelas mensagens e cartões virtuais. Não que essas mensagens não tenham o seu valor. Têm sim, mas nenhuma mensagem virtual compensa o prazer de pegar nas mãos um cartão escrito por um amigo, uma pessoa querida. Gosto muito de observar a letra de meus amigos quando me enviam um cartão de Natal. Nossa letra é um pouco de nós, tem a nossa energia. Neste Dezembro de 2006, poucos cartões me chegaram pelo correio: Apenas seis. De meu advogado Dr.José Rubens e sua equipe, de minhas amigas Claudine e Cristina Carvalho, do dono de uma grande farmácia, na qual deixo lá todos os meses, um valor considerável gasto com medicações e do entregador de jornal. De mais ninguém.

Gostoso era receber os cartões de Natal pelo correio, à moda antiga. Não que eu seja contra as mensagens virtuais, pelo contrário, faço uso delas com freqüência, mas sinto falta de ver a letra de meus amigos. A era virtual facilita muito a nossa vida, mas o correio eletrônico deveria ser usado com moderação, caso contrário vamos nos privar de momentos deliciosos como os que tive ontem quando telefonei para meu sobrinho Wallace lá no Ceará e ouvi sua voz querida. Além de ser o último dia do ano foi aniversário dele. Nenhuma mensagem virtual vai também me fazer sentir o bom que foi ouvir a voz emocionada de minha sobrinha Weena, por estar falando comigo ao telefone, eu aqui em São Paulo, ela, lá no Rio de Janeiro.

Que tenhamos todos um excelente 2007 e que em momento algum deixemos que as facilidades do correio eletrônico e da Internet nos privem do gostoso que é o olho no olho, o toque na pele, o beijo no rosto, o abraço gostoso, o cheiro da gente, a troca de afeto ao vivo e a delícia que é ouvir o som de uma voz amiga.

FELIZ 2007!!!