sábado, abril 07, 2007

NOSSA CASA, NOSSO CASTELO

Marcos, um conhecido meu, é casado com uma mulher que tem mania de limpeza. O filho Pedro, de sete anos, não pode comer bolachas ou biscoitos dentro de casa, para não sujar o chão com os farelos. Marcos trabalha no ramo de transportes e por causa da correria, muitas vezes se alimenta na rua, comendo fast food ou qualquer salgadinho. Chega em casa doido por uma refeição caseira, tipo feijão com arroz e um bife acebolado. Vai até a cozinha, e o fogão está imaculadamente limpo. Clara, a esposa de Marcos, não fez almoço para não sujar a cozinha. Chateado, Marcos prepara algo rápido para comer, quase sempre um miojo, e sob os protestos da mulher.

- Não acredito que você vai fazer comida! Mas você acabou de chegar da rua, por que não comeu por lá?!

E aí, invariavelmente tem início uma discussão entre o casal.

Sempre que encontro Marcos, ele comenta da obsessão da mulher por limpeza. Diz que por causa disso, ela se tornou uma pessoa muito chata, e a convivência com ela ficou difícil. Dá para entender.

O oposto também existe.

Tempos atrás, quando cogitei trocar o apto.onde moro com meus filhos, por uma casa térrea, acompanhada de um corretor, visitei um imóvel nas imediações da Vila Mariana, onde certamente Clara, a esposa de Marcos, enlouqueceria se tivesse que permanecer ali por pelo menos um dia. Ao chegarmos à casa, o corretor tocou a campainha e aguardamos. Apareceu para nos receber, uma senhora usando um roupão desbotado, e trazendo entre os dedos, um cigarro que fumava sem parar. A mulher, aparentando algo em torno de 50 anos, com ar de enfado nos conduziu por um corredor estreito, que levava ao quintal da casa. Foi por aí que começou a visita ao imóvel, - pelo quintal. Não havia plantas ou flores no chão de piso frio. Ao fundo, uma pequena piscina desativada, mas com água coberta de lodo, dava um ar de abandono ao local. Quatro cadeiras empilhadas numa mesa que já fora branca, sugeriam que viva alma não se sentava nelas há tempos. Por todos os lados que eu olhasse, via fezes de gatos. De cara, avistei logo três dos bichanos. A mulher me levou a um salão ao lado da piscina, sem móveis e com vasilhas espalhadas com água e comida para os gatos. Havia ali mais cinco dos bichos. Enquanto eu caminhava preocupada em desviar das fezes dos gatos, a moradora percebeu minha expressão de nojo e me falou ríspida:

- Estou percebendo que a senhora não gosta de gatos. Eu adoooro meus gatos e quem não gostar deles não é bem vindo aqui.

Ai, que desconforto senti.

- Entendo, respondi. - A casa é sua e a senhora não precisa se preocupar se os visitantes gostam ou não de seus gatos. Eles são lindos. Quantos gatos a senhora tem em casa?

- Doze, respondeu a mulher.

- Aaah!, me expressei: - Eu contei oito. Três ao lado da piscina, cinco aqui no salão.
- Onde estão seus outros gatos?
perguntei, tentando parecer simpática.

- Por aí, dentro de casa, ela disse. - Eles ficam nos quartos, na sala ou na cozinha.

Desejei acabar logo com a visita. Entramos na casa, e foi difícil circular pela sala sem esbarrar em móveis entulhados de enfeites empoeirados. O ambiente era escuro e cheirava a mofo. Vimos os quartos, nos quais via-se também mais vasilhas espalhadas com água e comida para os gatos. Que casa mais sombria, que ambiente mais sujo, feio e hostil.

De volta ao meu apto., tomei um demorado banho de chuveiro, como se quisesse me livrar do cheiro do cigarro da mulher e das fezes de seus gatos. Depois, mais relaxada, ouvi CDs de Enya, Yanni e Aurio Corra, e fiquei um bom tempo em minha cadeira de balanço, olhando minhas plantas na sacada, onde tenho Fícus, Flamboyant, Alamandas, Primaveras e outras flores. Lembrei daquela casa suja e mal cheirosa que acabara de visitar, e adorei estar de novo em meu espaço, que me pareceu ser o melhor lugar do mundo.

Fiquei pensando quão opostas são, a mulher de Marcos e sua preocupação excessiva com limpeza, e a mulher dona da casa que eu acabara de conhecer, esta, sem preocupação alguma com limpeza, e demonstrando absoluta falta de higiene, ao viver num ambiente sujo e mal cheiroso, e imaginei como deve ser difícil conviver com essas duas pessoas. Dois opostos, dois ambientes onde não há como alguém se sentir confortável.

Felizmente existe o meio termo. Algumas pessoas, sem precisar chegar a extremos, conseguem manter a casa em ordem, e suas moradias transmitem sensação de bem estar a quem chega. A moradia de uma pessoa pode ser simples, mas é preciso que exista um mínimo de organização e limpeza, para que o ambiente seja agradável, tanto para o morador, quanto para quem o visita. Exageros, tanto para a limpeza quanto para a bagunça, devem ser evitados.

Considero importante morar bem. Não necessariamente com luxo e requinte, mas certamente com descontração, aconchego e conforto. É para nossa casa que vamos, após um dia de trabalho cansativo e estressante. É em nossa casa que relaxamos, após dirigir num trânsito cada dia mais complicado, como o das grandes cidades, e muito por conta disso, as pessoas vão se tornando cada vez mais agressivas ao volante. É para nossa casa que vamos, depois de fugirmos da hostilidade desse trânsito e da violência das ruas. Por tudo isso, nossa casa deve ser, nosso canto de paz, nosso ninho de amor, nosso recanto mais belo. Nosso castelo.

Um comentário:

Um Poema disse...

Antes de mais quero agradecer a visita e as palavras simpáticas.

Gostei de conhecer este espaço. Gostei da forma de análise quer do comportamento da mulher de Marcos (será que ainda vai sê-lo durante muito tempo?) quer da forma como a repulsa pela sujeira é abordada.

Será um prazer voltar aqui.

Uma Páscoa Feliz!

Um abraço