quinta-feira, junho 02, 2011

Quem matou Tereza? (crônica de Leila Jalul)


QUEM MATOU TEREZA?
Leila Jalul

“VOCÊ TENHA OU NÃO TENHA
MEDO NEGO, NEGA, O CARNAVAL
CHEGOU
MAIS CEDO OU MAIS TARDE ACABO
DE CABO A RABO COM ESSA
TRANSAÇÃO DE PAVOR
QUE DEUS ABENÇOOU”
DEUS E O DIABO - Caetano Veloso

Via de regra, para não dizer sempre, meus textos, sejam contos, crônicas ou artigos, encerram mortes. Ou mataram alguém, ou alguém está ameaçado de morte, ou, em melhor análise, um defunto vai ser enterrado e outro já está entrando na agulha. Não foi por acaso que Elson Martins, meu irmão jornalista, sugeriu o título de rasga-mortalha para o livrinho
SUINDARA. E quem é suindara, senão a forma eufemística de chamar a ave agourenta?

Alguém, não importa quem, mandou-me servir, em pratos fundos, este meu cardápio de estórias e devaneios para estudos de psiquiatria. Sem gueri-gueri ou flacs-flacs, nem fiquei ofendida! Doido bom é doido do bem!

Altino Machado, o jornalista que incentivou minhas escritas, dizia que eu tinha um bom lead. Tudo bem! Os parágrafos acima ficam sendo o lead! Juntando o que disseram Elson, o alguém que não importa quem e o Altino, por mais que a morte esteja presente na minha pauta, sou uma doida que sabe iniciar a abordagem sobre ela.

E quem matou Tereza, dona doida?

Garanto, juro, eu não fui!

Quando cheguei à cidade de Niterói (que sofre e eternamente irá sofrer de inveja e de ciúmes do Rio de Janeiro, a maravilhosa) mal tinha completado 12 anos, deparei-me com o incêndio criminoso daquele circo. Lembram? Sofri muito! Nos escombros, sapatinhos de crianças eram encontrados. Chupetas, ursinhos, sandálias de salto ou sapatinhos, ainda que chamuscados, eram recolhidos do rescaldo. Prevalecia o luto! Nos hospitais, principalmente no Antônio Pedro, havia gente queimada saindo pelo ladrão.

Fui morar com meus padrinhos numa vila no bairro Santa Rosa. A vila, na verdade, era um enfileirado de dez casas parede com parede. Janelas e portas, para sufoco dos “enquilinos”, somente as da frente e as do fundo. No norte, esse tipo de construção, merece o nome de quarteirão e, normalmente, é vivenda de mulheres ditas “da zona”. Lado a lado, quarto com quarto, sala com sala, era possível ouvir os gemidos das alcovas, o arrastado de cadeiras e, inclusive, saber se e quando as panelas de pressão das vizinhas estavam precisando de desligamento ou de água para que não voassem pelos ares. E mais, até era possível o reconhecimento do cardápio: cozido com legumes ou feijão preto com paio. Resumindo: a tão desejada privacidade, era de total inexistência.

Meus vizinhos eram dona Marieta, o esposo Sinforoso, italianos do porca-pipa-miséria e a filha Marly. Esta, meio que juntada com um salva-vidas saradão e sósia do Kirk Douglas, com direito a buraquinho no queixo. Do outro lado, o Joaquim português, dono da quitanda, a esposa Maria, do lar, e uma filha chamada Tereza. E é de Tereza que quero falar.

Tereza era um mulherão. Linda! Tinha uma pele rosa pálida de tanto que só vivia trancada em casa. Diferente da Marly, assídua frequentadora da praia de Icaraí, gostosona, torrada e sempre grudada no seu boyzão salvador dos náufragos e dos insolentes. Foi junto com ela e com o Kirk que salguei os “quartos” pela primeira vez. Eles tiraram o meu cabaço de banho de mar. Foi divino, emocionante e algo mais! Perto do Kirk, asseguro, não tinha medo nem de tubarão.

E Tereza? Ah! A flor Tereza! Quem disse que a lusa e linda Tereza podia banhar-se e levar caldo das ondas? E pegar sol e lambuzar-se na areia, quem disse?

Ah! Me lembro, eu me lembro, era pequena... Foi com Tereza que aprendi a ouvir o fado, a gostar de Amália e a valorizar o sabor do bacalhau à moda do Zé do Pipo! Tereza mandava um tiquinho, sempre um tiquinho, para que eu provasse os sabores e paladares das terras de Camões. Ela sabia dos “bons” e até dos “excelentes” tratos que eu recebia na casa dos horrores onde vivia. Sim, eu me lembro, eu me lembro - era pequena, que Marly e Tereza eram minhas guardiãs. Quem já comeu açorda que lamba os beiços. Eu já comi! As sardinhas, fritas e reluzentes, a panela com grãos de bico cozidos, com caldo, e muito alho frito em puro azeite dos olivais portugueses empapavam os croutons do pão da terrinha, feito por Tereza. Lambam os beiços, plus! De novo! Outra vez!

Um dia, estava frio de doer. Por volta das cinco da manhã, levantei para fazer o café. Sabia que o velho Joaquim deveria estar na quitanda da Avenida 5 de Julho e que dona Maria, para não perder o costume, deveria ter saído para buscar pão, leite, presunto e queijo. Talvez mortadela, se estivesse mais em conta...

Ouvi um barulho estranho na parede da cozinha. Um barulho, assim como se fosse um gato ou um cachorro arranhando a porta da casa para poder entrar. De repente, um som feito um ganido, um espasmo, um gemido saído de um sufocado. Colei o ouvido na parede.

Corri para Tereza. Virei a “taramela” da portinhola e entrei. Na cozinha, vi sangue na parede divisória colada à minha. Peguei Tereza, com carinho, levei-a para sua cama e deitei-a com a cabeça sobre minhas pernas. Ela acalmou. Parou de resfolegar e... E dormiu! Imaginem uma pessoa dormindo! Em sono bom, imaginem!

Ah! Me lembro, eu me lembro, era pequena e sabia que Tereza sofria de asma. Nunca a tinha visto em crise aguda. Não sabia como agir. Não sabia, mesmo!

Tereza estava noiva de João Manuel, um mancebo nascido em Guimarães. O enxoval deles estava sendo feito com linhas peroladas cairel, com motivos da Ilha da Madeira. Flores bordadas em ponto cheio ornavam as extremas e os viras das fronhas e lençóis de linho e de percal. Um capricho! Peguei uma colcha de piquê, cobri minha amiga e saí ao encontro de dona Maria.

- Cadê Tereza?

- Dorme, dona Maria. Ela sentiu-se mal e agora dorme.

- Muito bem, menina! Muito obrigada! Que a Virgem te abençoe!

Ainda agora, neste exato momento, essas palavras latejam em meus ouvidos.

Ao voltar da escola é que vi o alvoroço. Tereza, vestida como noiva, estava sobre a mesa da sala. Entrei e vi que os olhos de João Manuel estavam acusadores. Surtei! Eu era menina e nunca esqueço. Fiquei escondida e amedrontada. Fui para minha casa, de onde se ouvia os gemidos de alcova, os arrastares de cadeiras e de onde se sentia o cheiro da vida alheia, eu apenas ouvia as vozes na puxada do terço. De sobra, ainda e quase em sussurro, um pouco da minha voz quando da hora da nossa morte, amém!

Fui inquirida por médicos e curiosos. Ai, meu Jesus Cristinho! Meu Jesus do céu, eu era menina, era pequena e não sabia! Fiquei assassina ali no ambiente. Só fiquei, não! Senti-me assim!

Agora, quando ainda sou pequena e sou menina, posso lembrar sem tanto medo. Medo que escondi por todo o tempo. Eu não matei Tereza! Foi o atraso dos chás das asas de morcegos, dos das cascas das baratas e das mezinhas que substituíam e faziam as vezes da medicina de hoje. Não mais sinto a polícia correndo atrás de mim. O mal não está e nunca esteve em mim.

Fiz questão de não ler artigos sobre a asma. Preferi deixar meu texto com a pureza da resposta das crianças. Louvo o avanço da medicina. Nada de fumo de rolo “esmigalhado” e nada de cuspe fétido no umbigo das crianças. Nada de catados de merda branca de peru preto para acabar com a catarata. Nada de chás de asas de morcego pra chiadeira de peito. Nada de café forte com manteiga para debelar tosse. Nada de passes, nada de placebos. Nada de orações ou simpatias. Pensando bem, oração, pode!!! Fitoterapia, desde que manipulada, também pode! Medicina oriental? Acho que pode! Homeopatia? Claro que pode! Nosso amigo William usa a bombinha dele. Alivia bem! Assim ele diz.

A ignorância e o atraso mataram Tereza. Nenhuma medicina ela tomava: apenas chás e mais chás, xaropes caseiros e unguentos, incapazes de debelar momentos críticos.

No que me diz respeito, sou inocente! Eu não matei Tereza!

A ciência, nego, nega,
você tenha ou não
tenha medo, não é in-
venção do diabo. A ciên-
cia, nego, nega,
é invenção do homem
Que Deus abençoou!

Leila Jalul

4 comentários:

Fatyly disse...

Li e reli e adorei esta crónica e como Leila Jalul escreve tão bem.

Ri quando ela falou do casal português e das suas comidas e ainda mais quando descreve a sua habitação: "Resumindo: a tão desejada privacidade, era de total inexistência." é que é tal e qual o que ocorre no meu prédio de 3 andares, ouve-se tudo e até fazer "pipi" a gente sabe se é homem ou mulher:):):)

Subscrevo inteiramente e de facto "a ignorância e o atraso mataram Tereza," mas continua a matar e matarão porque até nos países mais desenvolvidos...essas crendices não passam, excepto se forem parar ao hospital e por vezes tarde demais!

Obrigado pela partilha e parabéns a Leila!

Beijos do lado de cá do oceano

peciscas disse...

Quando leio um texto novo da Leila acho que gosto ainda mais do que do anterior.
E este, então, que fala de coisas tão próximas de mim. Desde logo, coisas portuguesas, comidas, sabores, cheiros.
Depois, porque também eu tenho convivido com asma, desde há muitos anos. Filho e mulher. Que, felizmente, têm ao seu dispor recursos que a infeliz Teresa não tinha.

Grande escritora a Leila, que merecia, acho eu, ter um maior destaque nas letras luso-brasileiras.

Leila Jalul disse...

QUERIDOS AMIGOS FATYLY E PECISCAS

LER OS COMENTÁRIOS À MINHA CRÔNICA NO OFICINA DE PALAVRAS DEIXOU-ME FELIZ. ESTA EXPERIÊNCIA QUE VIVI AOS 12 ANOS, POR MUITO FICOU GUARDADA E, AOS 63, PERMITI-ME LEMBRAR.
MUITO OBRIGADA!
Leila Jalul

Elvira Carvalho disse...

Muito bom este texto da Leila de quem me parece já ter lido em tempos também um texto de grande qualidade neste mesmo espaço. Penso que não estou a fazer confusão. Um encanto a cena da do "salgar dos quartos" ou a descrição do casal português e dos nossos pratos.
Obrigada por este momento.
Um abraço