Ficava no Papoco, o bairro da nossa mais famosa zona de meretrício. Máquinas velhas, surradas, que muito custaram para que seu Artur e Dona Rita, avós do vereador comunista Márcio Batista, exibissem as películas da época.
A localização do meu recanto da sétima arte era infame: um casarão de madeira, quase lúgubre. Pra que lá se chegasse, ou se atravessava a entrada principal do Papoco, com lama beirando os joelhos, caminhando os cento e poucos metros lotados de doidivanas e quengas encrenqueiras, ou se dava uma volta enorme pela Rua Rio Grande do Sul. Segui sempre pelo caminho mais curto. Eu tinha "green card".
Oscarito, Grande Otelo, Adelaide Chiozzo, Dercy Gonçalves, Cantinflas, O Gordo e o Magro, Anselmo Duarte. Tudo ali. Todos ali. Não havia censura nem precisava pagar ingresso.
Chegado o inverno, um só filme era repetido todos os dias. Vinte, quarenta vezes... Quem se importava com isso? O filme era supimpa mesmo!
E foi assim com "O Ébrio". Era um silêncio sepulcral, nada importando o tempo que estivesse "estreando".
"Nasci artista, fui cantor... Ainda pequeno, me levaram para uma escola de canto. O meu nome, pouco a pouco, foi crescendo, crescendo, até chegar aos píncaros da glória... Tive vários amores... Todos eles me juraram amor eterno, mas acabavam fugindo com outro..."
Calados, nós, assíduos, apenas escutávamos uns fungados e o assoar nos lenços duros, as secreções de dor dos atingidos pela desgraceira.
"Uma noite, quando eu cantava a Tosca, uma jovem da primeira fila atirou-me uma flor... Essa jovem veio a ser, mais tarde, minha legítima esposa... Noutra noite, quando eu cantava 'A Força do Destino', ela fugiu com outro, deixando-me uma carta e, na carta, um adeus..."

Vicente Celestino em cena do filme "O Ébrio"- 1946
Uma tarde-noite de chuva, muita chuva, lá estávamos eu, Seu Edmundo, Seu Mamede Caboclo (avô do Itany) e Seu Alfredinho. Só nós quatro e o operador do qual não lembro o nome. O cara - o operador - fumava feito uma caipora. No facho de luz, até onde estava a tela, surgia aquela nuvem fedida do Continental sem filtro. Haja pulmão!
Mesmo assim, lá estava o corno embriagado, que dizia:
Mesmo assim, lá estava o corno embriagado, que dizia:
"Não pude mais cantar. Mais tarde, lembrei-me que ela, contudo, me havia deixado um pedacinho de meu eu: a minha filha, uma pequenina boneca de carne que eu tinha o dever de educar..."
O Edmundo continuava chorando e assoando o nariz. De minha parte, era tanto e convulsivo o choro que, não raras vezes, a titela se encontrou com o couro do espinhaço.
"Voltei novamente a cantar, mas só por amor à minha filha. Eduquei-a, fez-se moça e bonita... Até que numa noite, quando eu cantava mais uma vez 'A força do destino', Deus levou minha filha, para nunca mais voltar... Daí para cá, eu fui caindo, caindo, passando dos teatros de alta categoria para os de mais baixa..."
Foi nesse exatíssimo momento que o cinema parou. Edmundo deu um soluço tão forte, tão forte, que desmaiou. E ouviu-se um pequeno estalido de um objeto caindo. Ao menos eu ouvi. Mas não houve tempo para a preocupação de saber o que foi. Isso era de somenos.
Recuperados, voltamos a ver o filme, que já estava na parte do canto-opereta que dizia:
Recuperados, voltamos a ver o filme, que já estava na parte do canto-opereta que dizia:
"Falsos amigos, eu vos peço e imploro a cantar. Quando eu morrer, na minha campa nenhuma inscrição. Deixai que os vermes, pouco a pouco, venham consumir este ébrio triste, este triste coração... Quero somente que na campa onde eu repousar, os ébrios loucos como eu venham depositar os seus segredos em meu derradeiro abrigo, e suas lágrimas de dor ao peito amigo..."
The End!
Cada um para suas casas, ou, de preferência, para o boteco mais próximo. Seu Mamede Caboclo reclamou que, enquanto atendia o Edmundo durante o desmaio, deixou escapar a dentadura. Nunca mais a encontrou. Também, pudera, só ele gozava da cara do Edmundo. E era o Edmundo que limpava o Biriba...
Depois dessa película, outra, de grande poder destrutivo, foi exibida pelo resto do inverno: "Coração Materno".
"Disse o campônio à sua amada: Minha idolatrada, diga-me o que quer. Por ti, vou matar, vou roubar. Embora tristezas me causes, mulher. [...] Por ti, não me importa matar ou morrer [...] Se é verdade tua louca paixão, parte já e, para mim, vá buscar, de tua mãe, inteiro o coração. [...] Chegando em casa, o campônio encontra a mãezinha ajoelhada a rezar. Rasga-lhe o peito, o demônio, tombando a velhinha aos pés do altar."
Velho Cine Biriba. Quantas lágrimas! Quanta alegria! Quanta vida! E uma dentadura perdida...
LEILA JALUL, CRONISTA E POETA ACREANA.
E para melhor ilustrar esta gostosa crônica de Leila, veja e ouça Vicente Celestino cantando "O Ébrio"
E para melhor ilustrar esta gostosa crônica de Leila, veja e ouça Vicente Celestino cantando "O Ébrio"
10 comentários:
Saudo o teu regresso a este espaço, após a breve pausa que fizeste.
E ainda por cima, com um belisssimo post que tem por base mais um saboroso texto da Leila Jalul.
Que nos evoca aqui o cinema que era visto em recantos modestos do Brasil e também aqui de Portugal. Filmes velhos, tantas vezes repetidos, passados em velhas máquinas, mas que, ainda assim, eram o única forma de levar a sétima arte a pequenos povoados.
Cheguei a ver sessões deste tipo na minha aldeia natal.
E ainda bem que Cine Biriba vai dar origem a uma curta metragem.
Por dois motivos: porque o talento da Leila o merece e porque é essencial preservar essas memórias de um passado que teve um forte impacto na vida das pessoas.
E esse extracto do filme "O Ébrio" completa o post de forma ideal porque nos transmite perfeitamente a atmosfera dessas películas que foram um marco na história do cinema.
Adorei este post e subscrevo as palavras do Peciscas.
Beijocas meu doce e um especial a Leila e que não desista de escrever!
Querida Odele, como já disse, o post ficou lindo e bem ilustrado. Também vou ficar esperando ver o filminho. O roteiro é bom e o maior prêmio é o fato de ser uma iniciativa de pessoas que estão iniciando suas vidas no mundo do cinema.
Agradeço ao Peciscas e Fatyly pelas palavras sempre carinhosas.
Um beijo para a amiga.
Adorei o post Odele... Muito bem escrito e nos remete ao saudosismo. Vou assistir o filminho :) Gosto de assistir aos filminhos antigos sempre.
Beijos
Muito bonito o texto, a fazer lembrar o que acontecia em tanto cineminha de aldeia há mais de 50 anos.
Um abraço e bom fim de semana
Odele,
Para ser sincera, não conheci nenhum 'Cine Biriba', mas nem por isso deixei de gostar do post, do texto da Leila, e de saber que a história vai se transformar num curtametragem. Isso, por si só, já é uma vitória nesse Brasil tão pobre de apoio cultural.
Parabéns pra Leila e pra você também pela generosidade de divulgar o trabalho da amiga.
beijinho
Adorei o post e o filme. Já há tanto tempo que não passava por este teu blogue.
Um beijo grande e espero que estejas bem.
Xicoração
AMIGA, AS 2 semans que antecederam o casamento da filha foram corridas e ainda temos visitas do Brasil. Mas essa Ebrio é tocante.Hoje, só visitei posts com musicas.UMa maravilhsa.E Flavinha, como vai e vc?bjs e dias felizes
Boa tarde, Odele!
Quero agradecer-lhe, em nome da organização da blogagem colectiva Aldeia da minha vida, por ter participado, na qualidade de leitora e eleitora e pelo seu contributo para o sucesso da mesma.
Dia 30 de Junho serão publicados os resultados.
Até lá, um bom fim de semana!
Susana Falhas
Maravilha de pardtilha, Odele!!!
Obrigada por ela!
Jinhos muitos
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